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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

História de um homem sem nome - Parte 3

E na ausência de autoridade superior, conduziram o recém-nascido a toda elegância de seu primeiro quarto: uma fria cela provisória de delegacia. Havia naquela delegacia apenas quatro dessas, todas iguais e enfileiradas, contendo um banco de pedra, espaço mínimo e grades para combinar. Não havia naquele bairro tão grande incidência de crimes, tampouco de criminosos, e os que teimavam aparecer raramente ali ficavam por tempo suficiente para usar das celas. Porém, naquela ocasião, estava ali um homem encarcerado.
Os guardas, talvez por pressa ou puro descaso, jogaram o recém-nascido na cela, devidamente o trancafiaram e saíram o mais rápido possível. Ficaram então as duas figuras a se contemplar. O homem, em trapos, encarava o outro que tremia de frio no chão. Não haviam se dado ao trabalho de vestir o prisioneiro encontrado nu, ou sequer um cobertor.
Ficaram por mais alguns segundos em contemplação, até que o homem em trapos pegou o cobertor velho e furado de sua cela, e com cuidado o passou entre as grades e jogou-o ao recém-nascido. Esse, por instinto, pegou-o e percebendo que o esquentava, enrolou-se nele. O homem em trapos então sorriu, e o recém-nascido o retribuiu.
E sem uma palavra, sem conhecimento, sem saber de crimes ou penas, os iguais se reconheceram, e o recém-nascido encontrou o primeiro que o compreendera e o tratara bem. Talvez fosse o mesmo para o velho mendigo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

História de um homem sem nome - Parte 2

Depois de uma (não) merecida sova, o guarda chamou o parceiro, enfiou o recém-nascido aos pontapés na viatura e foi largá-lo na delegacia. Iniciaram o boletim, acusação: atentado violento ao pudor. Na hora de fazer a ficha, o primeiro problema: o nome.
- Qual o seu nome rapaz? – perguntou o escrivão.
Silêncio.
- What’s your name?
Silêncio.
E pôs-se a despejar todo seu poliglotismo, característica pela qual era um tanto conhecido na cidade, mas que na verdade não passava das perguntas da ficha em várias línguas. Falou em italiano, espanhol, russo e chinês. O recém-nascido por um momento quase achou que aquele homem também não sabia juntar as idéias na fala, mas logo viu que não era bem isso.
Depois desse inútil esforço, o escrivão se virou e disse:
- Olha, não adianta ficar resistindo, já está aqui rapaz, que custa dar os dados de uma vez, já que não escapatória?
Silêncio.
- Que sujeitinho difícil. – resmungou o escrivão.
Apelaram então a tecnologia, e puseram a impressão do recém-nascido na rede afim de descobrir sua procedência.
O coitado permanecia calado, já que não entendia nada e pensou que emitir ruídos poderia lhe causar problemas de novo. Começou a ter um pouco de frio e as algemas incomodavam. Ainda sim, preferia o silêncio.
O computador porém, pesquisou e pesquisou, e no fim não encontrou foi nada.
- Esse rapaz deve ser estrangeiro mesmo, só pode. Tão grande essa cidade, cai uma figura dessas logo na nossa área. Enfie ele numa cela até o delegado chegar. Ele vai decidir o que fazer com ele.
E assim, o recém-nascido foi preso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

História de um homem sem nome - Parte 1

Foi simplesmente assim: um dia abriu os olhos, e deu-se conta que existia. Olhou ao redor e reconheceu tudo, sabia o que era mato, cimento e pele. Sabia andar e tinha corpo de homem feito, porém não conseguia falar. Visto que aparentemente acabara de nascer, simplesmente não sabia o que fazer.
Então seguiu os ruídos, e viu-se no meio de uma cidade. Era ainda cedo e uma mulher caminhava em direção a um ponto de ônibus. Viu nela a sua esperança e se aproximou para tentar pedir ajuda. Como não falava, tentou gesticular e emitir os ruídos que conseguia, em sua espécie de linguagem primitiva.
Ela se virou surpresa quando sentiu a mão lhe tocar o ombro, porém quando viu quem tinha lhe tocado deu um grito que quase derrubou o pobre recém-nascido de susto. Fizera isso por um único motivo, que o coitado não tinha percebido e tampouco entendia: ele estava nu.
Seu grito foi ouvido por um guarda que passava próximo e ao ver a cena nem fez perguntas, subentendeu que o homem era um tarado ou estuprador e correu para lhe descer o braço. E o recém-nascido nada pode fazer além de apanhar e ser levado a delegacia. Menos de uma hora de vida, sem nome, mas já com ficha policial.