quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

História de um homem sem nome - Parte 3

E na ausência de autoridade superior, conduziram o recém-nascido a toda elegância de seu primeiro quarto: uma fria cela provisória de delegacia. Havia naquela delegacia apenas quatro dessas, todas iguais e enfileiradas, contendo um banco de pedra, espaço mínimo e grades para combinar. Não havia naquele bairro tão grande incidência de crimes, tampouco de criminosos, e os que teimavam aparecer raramente ali ficavam por tempo suficiente para usar das celas. Porém, naquela ocasião, estava ali um homem encarcerado.
Os guardas, talvez por pressa ou puro descaso, jogaram o recém-nascido na cela, devidamente o trancafiaram e saíram o mais rápido possível. Ficaram então as duas figuras a se contemplar. O homem, em trapos, encarava o outro que tremia de frio no chão. Não haviam se dado ao trabalho de vestir o prisioneiro encontrado nu, ou sequer um cobertor.
Ficaram por mais alguns segundos em contemplação, até que o homem em trapos pegou o cobertor velho e furado de sua cela, e com cuidado o passou entre as grades e jogou-o ao recém-nascido. Esse, por instinto, pegou-o e percebendo que o esquentava, enrolou-se nele. O homem em trapos então sorriu, e o recém-nascido o retribuiu.
E sem uma palavra, sem conhecimento, sem saber de crimes ou penas, os iguais se reconheceram, e o recém-nascido encontrou o primeiro que o compreendera e o tratara bem. Talvez fosse o mesmo para o velho mendigo.

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